Hoje termina o prazo para que os advogados do casal Any Paula Fascolin e Nilson Moacir Oliveira Cordeiro se manifestem sobre o resultado do exame de insanidade mental, pelo qual o casal passou em abril deste ano. Any e Nilson foram investigados e presos em julho do ano passado – e soltos às vésperas do Natal -, acusados da morte do filho de apenas sete dias, Luan Gabriel Cordeiro, vítima de um suposto abuso sexual. A defesa, representada pelos advogados Nilton Ribeiro de Souza e Luciano Cesconetto, rebate o laudo do Instituto Médico Legal e as investigações, apontando uma doença rara como causa da morte.
A averiguação foi solicitada em caráter de urgência pela delegada Paula Brisola, do Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (Nucria), ainda à época do inquérito, que ocorreu entre julho e agosto do ano passado. Porém, a Justiça só autorizou a avaliação dez meses depois, agendando-a para os dias 12, 13 e 17 de abril deste ano. O resultado do exame, realizado no Complexo Médico Penal pelo médico-psiquiatra Carlos Fiorucci e a psicóloga Rita de Cássia Arantes, era esperado para no máximo 20 dias, porém seu resultado só foi emitido na quarta-feira passada, 19 de julho.
Laudo
Os resultados da avaliação – emitidos individualmente para cada examinado – não apontaram doença mental ou transtornos psicológicos nos acusados. O laudo de Any ainda descreve o abalo emocional da acusada, descritos por ?ansiedade, choro, sentimento menos-valia, luto e desesperança?, sentimentos que os advogados apontam como posteriores à morte de Luan.
Ao solicitar o exame de insanidade mental à Justiça, a delegada Paula Brisola justificou o pedido: ?Em informação prestada pelo psicólogo do setor psicossocial do Ciac – 1.º DP, Paulo César de Souza Vaz esclarece que ?notou-se um certo distanciamento (não envolvimento afetivo) no relato dos pais da vítima?; ainda, em depoimentos prestados pelos médicos e assistentes sociais que comunicaram e questionaram os pais sobre os fatos, informaram que não houve reação por parte dos mesmos demostrando frieza e indiferença ao caso, o que não é comum quando se trata de pais de possíveis vítimas de violência sexual?.
Em seu próprio depoimento ao Nucria, durante o inquérito, Nilson demonstrou que queria esclarecimentos sobre a morte, e ainda solicitou que, extra ao laudo do Instituto Médico Legal, o bebê fosse examinado por uma pediatra de confiança do casal, pedido que não foi autorizado.
Após a manifestação sobre o laudo, Souza e Cesconetto dizem que vão inserir novas informações e provas ao processo. Encerrada esta fase, o caso segue para as alegações finais, e em seguida, para sentença, fato que ainda não tem prazo definido para acontecer.
?Não é fácil superar tudo isso?
?Nunca mais vamos ser as mesmas pessoas. Ainda sofremos muito com tudo isso?, disse uma parente de Nilson, resumindo o sentimento de toda a família após a morte do bebê que resultou na acusação contra o casal. Na semana em que o nascimento e a morte de Luan completaram um ano – 1.º e 8 de julho respectivamente, – Nilson deu uma entrevista à Tribuna. ?Normalmente já seria difícil falar sobre o assunto, ainda mais agora, com a passagem dessa data tão dolorosa?, disse o assessor parlamentar. Any não estava em condições emocionais de falar sobre o caso, explicou Nilson.
?Tudo isso nos traz grande revolta. O resultado seria diferente se as coisas tivessem sido conduzidas de forma diferente desde que o Luan nasceu. Se não fosse por negligência médica, talvez hoje eu estivesse com meu filho. Ainda não consigo lidar o problema com meus outros filhos, e a situação tem sido devastadora para eles?, disse o assessor.
Numa segunda entrevista, Nilson falou da vida do casal após a prisão: ?Há momentos do dia-a-dia que nos fazem relembrar tudo. Não é fácil superar um fato como esse. Eu consegui retornar ao trabalho, mas de forma atrasada, pelas nossas condições psicológicas. Devido ao incentivo e apoio de colegas, professores e da própria faculdade, voltei a estudar Direito. Mas é um processo de reinserção lento. A Any ainda não conseguiu essa reinserção?.
Os advogados, Souza e Cesconetto, contam que Any já conseguiu dois empregos, mas foi mandada embora de ambos após descobrirem sua situação. ?Em outras entrevistas de emprego já a reconheceram de cara e nem a aceitaram?, explicou Souza.
?Nosso menor prejuízo é o financeiro. Já o prejuízo psicológico e moral é enorme. Trabalhar isso no dia a dia te derruba. É difícil fazer qualquer coisa sem lembrar que ela seria destinada ao Luan. Meu filho me falou dias atrás: ?Pai, semana que vem tá chegando o dia da tristeza. Se o Luan não tivesse morrido estaríamos preparando uma festinha para ele?. Ele combinou com a avó dele de ir ao cemitério, escondido dos pais, para não nos magoar?, relatou Nilson, completando: ?Queremos que os juízes sejam justos e corretos na nossa sentença. Tudo o que passamos foi em cima de uma fantasia. Tivemos nossos direitos cassados antes do tempo, fomos muito mais vítimas. Quero a sentença o mais rápido possível, pois estamos numa expectativa que incomoda, uma estafa, um ruim interno. Gostaria de poder deitar minha cabeça no travesseiro e dormir?, finalizou Nilson.
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