Infraestrutura

Modelo digital detecta riscos em obras e transforma o Paraná em referência nacional

Ponte de Guaratuba durante construção.
Ponte de Guaratuba durante construção. Foto: Ari Dias / AEN.

Gastar menos dinheiro público, eliminar aditivos de prazo em obras e garantir que construções de grande porte sejam entregues rigorosamente dentro do cronograma previsto deixaram de ser promessas distantes para se tornarem mais reais na infraestrutura do Paraná. O estado consolidou-se como a principal referência nacional na adoção da metodologia BIM (do inglês Building Information Modeling, ou Modelagem da Informação da Construção), um sistema inteligente de modelagem tridimensional que alia processos colaborativos a um uso intensivo de tecnologia para projetar, orçar e fiscalizar obras públicas antes mesmo da primeira estaca ser colocada no canteiro.

Enquanto a Lei Federal de Licitações (14.133) e regulamentações estaduais passam a exigir o uso preferencial da metodologia em todo o país, o Paraná usa a estratégia da metodologia BIM há mais de uma década. O resultado prático para o cidadão e para os cofres públicos é a prevenção do desperdício: ao construir a obra virtualmente antes da execução física, erros de compatibilização entre projetos de arquitetura, estrutura, elétrica e hidráulica são corrigidos na tela do computador — evitando paralisações, desperdício de insumos e estouros de orçamentos.

Engenharia de precisão: como o BIM protege o cofre público

Diferente do método tradicional — no qual arquitetos e engenheiros trabalham de forma isolada em plantas bidimensionais (em duas dimensões) e enviam dados fragmentados para planilhas de custos —, o BIM funciona como um ecossistema integrado. A ferramenta insere informações em tempo real no modelo 3D, permitindo extrair quantitativos de materiais de forma automatizada e simular todo o comportamento da estrutura.

“Trabalhar em BIM é construir virtualmente. Se eu preciso passar um tubo de hidrossanitário em um local com uma viga estrutural, ou em um hospital que exige uma série de cabeamentos complexos, a ferramenta aponta a interferência imediatamente na fase de projeto. Sozinho em linhas 2D, isso é difícil de ver. Só aí temos um ganho enorme e imediato”, explica a arquiteta Lorreine Vaccari, coordenadora BIM da Secretaria de Infraestrutura e Logística do Paraná (SEIL).

A agilidade na extração de dados e a precisão dos custos eliminam um dos maiores gargalos das obras governamentais: o reajuste sistemático por falhas de planejamento. “Se pensamos em tempo, que é o que mais custa além do recurso financeiro, quanto mais tempo uma obra atrasa, maior é o prejuízo. O ganho em agilidade e transparência é incomparável”, pontua Lorreine.

Da Ponte de Guaratuba aos municípios: a estratégia praticada pelo Estado

A liderança do Paraná no setor de modelagem não ocorreu por acaso. O processo começou ainda em 2014 dentro da administração estadual, evoluiu para a criação de laboratórios de testes com projetos-piloto rodoviários em 2015 e foi formalizado pelo Decreto da Estratégia BIM/PR em 2019. O movimento culminou na obrigatoriedade do uso da metodologia para empreendimentos públicos que envolvam recursos estaduais.

O caso mais emblemático da aplicação dessa tecnologia no estado é a obra da Ponte de Guaratuba. Durante a fase de elaboração do projeto modelado em BIM, os engenheiros realizaram simulações de vento para analisar a resposta dos estais (cabos de aço de sustentação). A modelagem 3D identificou que, sob determinadas velocidades de vento, haveria risco de interferência e choque entre o cabeamento. O problema foi corrigido antes da execução. Durante a obra, o uso de drones acoplados à plataforma BIM alimentou os fiscais com dados em tempo real sobre o avanço físico.

A metodologia também tem garantido entregas dentro do prazo e custos controlados em obras como o Conselho Tutelar de Marialva, os projetos do Condomínio do Idoso (Cohapar) e novas contratações da Secretaria da Educação.

“O Paraná virou referência nacional por ter uma estratégia contínua de Estado, sem interrupção desde 2019. Hoje atuamos integrados com a SESP (Secretaria de Estado de Segurança Pública), o DER (Departamento de Estradas de Rodagem), o Corpo de Bombeiros — automatizando análises de proteção contra incêndio e rotas de fuga —, o Tribunal de Contas, o CREA (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná) e o CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo). Também estamos capacitando as prefeituras para que a exigência da Lei de Licitações seja cumprida com qualidade em todas as regiões do estado”, destaca a coordenadora da SEIL.

O desafio na formação: preparando os profissionais

A consolidação do BIM como requisito legal e normativo nas esferas estadual e federal pressiona diretamente o mercado de trabalho e as instituições de ensino superior, encarregadas de formar os engenheiros e arquitetos que operarão esse novo ecossistema.

Para o professor Emerson José Vidigal, do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o papel da universidade pública é acompanhar a velocidade dessas transformações sem perder de vista a fundamentação prática da profissão.

“As universidades públicas concentram as principais capacidades científicas e de formação no Brasil. O debate sobre o BIM se intensificou pela legislação de licitações, mas precisamos entender que a tecnologia evolui rápido. Hoje, o debate científico já traz questões ligadas à Inteligência Artificial no processo de projeto”, avalia Vidigal.

Questionado sobre a tradicional divisão dos cursos universitários em estruturas isoladas (“silos”), o professor ressalta que o aprendizado prático alivia as barreiras entre as disciplinas. “O BIM é uma ferramenta que permite o trabalho colaborativo. A história da formação profissional é fundamentada na compartimentação porque envolve a especialização dos saberes. O curso de Arquitetura, por exemplo, tem a vantagem de formar profissionais em disciplinas práticas, onde o conhecimento é incorporado ao ‘fazer’. Esse aprendizado baseado na ação previne a fragmentação.”

Sobre os desafios enfrentados pelos recém-formados ao ingressar em mercados municipais menores ou em pequenos escritórios que ainda passam por transição digital, Vidigal pondera que a graduação oferece a base, mas o domínio completo das ferramentas exige tempo e continuidade.

“Nenhum profissional sai da faculdade pronto para todas as especificidades tecnológicas, porque nem tudo cabe em um curso de 4 mil horas ministrado em cinco anos. A formação continua após o diploma. Um arquiteto ou engenheiro leva mais de cinco anos de prática para dominar com segurança os processos de projeto, administração e construção, mesmo com o suporte de ferramentas robustas como o BIM”, conclui o professor da UFPR.

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