O lançamento hoje (23), na Embrapa Cerrado, das três sementes de soja transgênica RR adaptadas para a região do Cerrado brasileiro foi apontado como um marco histórico nos mais de 30 anos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Para o diretor-executivo da Embrapa, Geraldo Eugênio, o lançamento "também representa um ganho para o produtor e para o consumidor. Hoje, a Embrapa tem cultivares de soja geneticamente modificadas adaptadas ao Sul, ao Sudeste e à toda a região de cerrado do país. Isso é importante porque mostra o esforço da nação em ter o seu parque de ciência e tecnologia atualizado".
As sementes estão disponíveis para compra já para a safra deste ano e sua comercialização será feita por 30 empresas sementeiras do Convênio Cerrados, desenvolvido pelo Centro Tecnológico para Pesquisas Agropecuárias (CTPA), em parceria com a Embrapa e a Agência Rural de Goiás. A modificação genética nas sementes foi feita que se tornassem mais resistentes à ação de ervas daninhas.
De acordo com Eugênio, o impacto para o agronegócio é igualmente grande porque o Brasil estava tendo uma grande área de soja plantada de forma irregular. Como não existia um marco legal, ele explica que nos últimos dois anos a questão da soja transgênica era trabalhada com Medidas Provisórias. "Agora, com a Lei de Biossegurança, corrigimos isso. Hoje a soja geneticamente modificadas pode ser usada, desde que desenvolvida para o ambiente brasileiro e testada em relação à biossegurança".
Na visão do pesquisador Plinio Itamar de Souza, responsável pela equipe de 20 funcionários que esteve à frente da pesquisa, a Embrapa está lançando em torno de 13 variedades de soja transgênica para todo o Brasil e três especificamente para o Cerrado. Só no projeto das três sojas para o cerrado foram gastos sete anos de pesquisa. Segundo ele, poderão ser usados agrotóxicos herbicidas menos agressivos ao meio ambiente.
Na opinião do engenheiro agrônomo e produtor rural, Homero Pessoa, as cultivares transgênicas que têm esse novo gene para resistência às ervas daninhas poderão dar um ganho ao produtor e solucionar, em alguns casos, a questão da semeadura e o cultivo da soja em áreas problemáticas. "Eu tenho impressão que essas cultivares vão baratear o custo tanto para o agricultor quanto para o consumidor".
O chefe-geral da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, José Manoel Cabral Dias, disse que esse é o nono ano consecutivo de aumento da área de produção e cultivo transgênico no Brasil. "Essa área passou de 1,7 milhão de hectares em 1996 para 81 milhões de hectares em 2004". Dias estima que "o comércio de transgênicos tenha gerado receitas de US$ 24 bilhões em todo o mundo".
Ele disse ainda que a previsão é de que o Brasil produzirá cerca de 57 milhões de toneladas de soja transgênica no ano de 2010. "Se for mantida a mesma proporção de hoje, a região do Brasil central irá produzir cerca de 29 milhões de toneladas anuais", comemora. A produção atual da região, segundo ele, é de 18 milhões de toneladas.
De acordo com o engenheiro agrônomo da Campanha de Engenharia Genética do Greenpeace, Ventura Barbeiro, "a vantagem dos primeiros anos (em diminuição do uso de agrotóxicos) perde-se rapidamente. Existe a redução sim, mas depois o problema volta."
Quanto ao aumento da área plantada pela soja, Barbeiro diz que, por isso, hoje "o cerrado já é uma lembrança. Será preservado em alguns parques ou terras indígenas, mas a soja está avançando pela floresta amazônica". No futuro, alerta, "ela vai agravar o problema da contaminação dos rios e saúde da população indígena", pois será preciso, segundo ele, utilizar uma quantidade maior de herbicida do que hoje, já que as pragas ficariam mais resistentes.
