Depois de ter chamado o presidente americano George W. Bush de "cadáver político", diante de 20 mil pessoas em um estádio de Buenos Aires, o presidente venezuelano Hugo Chávez chegou à cidade de Trinidad, capital da província de Beni ao sul da Bolívia, onde as chuvas causaram 41 mortes, deixaram milhares de desabrigados, provocaram um surto inicial de dengue e levaram o caos a toda a região.
À sua espera já estava, hoje de manhã, o presidente boliviano Evo Morales. Em seu campeonato de popularidade com o presidente americano, Chávez terá como principal mensagem aos bolivianos uma comparação entre a ajuda que ele oferece e a anunciada pelo presidente norte-americano. Bush falou em US$ 1,5 milhão de ajuda às vítimas das enchentes. Chávez entregará US$ 15 milhões, além de enviar uma frota de helicópteros para enviar comida para vilas localizadas em áreas remotas.
Chávez ficou por um dia e meio na Argentina, onde assinou com seu colega Néstor Kirchner vários acordos bilaterais. "Acabamos de dar um sólido passo para reforçar o eixo Caracas-Buenos Aires que é estratégico", disse o presidente venezuelano. "E, naturalmente, do ponto de vista de um ato antiimperialista, acredito que fomos além da expectativa".
A julgar pelos jornais argentinos de hoje, ele ganhou a batalha de marketing: todos dão grande destaque ao seu discurso de duas horas. El Clarín publica foto dele ao lado da primeira-dama Cristina Fernandez com o título "Ratificam a aliança". No entanto, o La Nación destaca que o ato público "causou mal-estar" nas relações entre Buenos Aires e Washington
Em Trinidad, vivem cerca de 90 mil pessoas – a maioria dedicada à agropecuária. Desde as enchentes causadas por El Niño, nas últimas semanas, elas vivem numa imensa área cercadas por águas fétidas dos rios próximos.
No entanto, o prefeito da cidade e o governador da província, irritados porque a ajuda está sendo anunciada e oferecida sem sua participação, recusaram-se a receber o presidente venezuelano.
"Agradecemos pela assistência, mas lastimamos essa intervenção de Chávez na Bolívia", disse o prefeito Moisés Shiriqui. "Ele está vindo até a cidade para fazer campanha política". Trinidad jamais recebeu uma única visita de chefe de Estado, mesmo boliviano, em toda sua história.
De sua parte, no entanto, as vítimas das enchentes têm muitas críticas a fazer às autoridades locais, acusadas de lentidão na assistência a famílias desesperadas. Uma dessas famílias, vivendo num barraco com o selo americano da Usaid, diz ter dormido ao relento durante duas semanas antes que qualquer autoridade se dispusesse a ouvir seus pedidos. "Ir todo dia pedir ajuda, sem recebê-la, é uma coisa que nos faz sentir humilhação", disse uma dessas vítimas, que receberá tratores financiados pelos governos da Venezuela e do Irã.