As questões do primeiro dia do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) abordaram diversos temas ligados aos direitos humanos, como violência contra a mulher, racismo, refugiados, escravidão e discursos de ódio nas redes sociais. No entanto, nenhuma das 90 questões de Linguagens e Humanas trouxe, por exemplo, a temática LGBT, criticada em 2018 pelo presidente Jair Bolsonaro. Já a dissertação foi sobre democratização do acesso ao cinema, um tema considerado “neutro” pelos professores.

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Diretor do Cursinho da Poli, Gilberto Alvarez diz que a prova manteve o perfil de outros anos, cobrando uma visão crítica do candidato e valorizando a capacidade de leitura e interpretação. Entre os temas mais atuais, destaque para a situação dos refugiados. No entanto, ele vê com preocupação a ausência de alguns temas e conteúdos. “A prova trouxe menos questões de História do que em anos anteriores. É bem representativo o fato de alguns temas não terem caído, como a era Vargas e a ditadura militar, que sempre foram cobrados.”

João Daniel Almeida, professor de História do Descomplica, destaca que ficaram de fora também socialismo e Revolução Francesa. Cláudio Hansen, gerente pedagógico do Descomplica e professor de Geografia e Atualidades, sentiu falta de Guerra Fria, 2ª Guerra Mundial, problemas e conflitos urbanos. “Só que alguns dos medos que tínhamos em relação a conteúdos deixarem de estar presentes acabaram não se confirmando. Houve questões que tratavam sobre os direitos das minorias, problemas da concentração de renda, uso do agrotóxicos brasileiros… Isso tudo apareceu na prova”, disse.

Dados

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Levantamento feito pelo jornal O Estado de S. Paulo aponta questões sobre a ditadura militar recorrentes no exame desde 2009. Outros assuntos polêmicos, como 2.ª Guerra Mundial, Guerra Fria e nazismo, por exemplo, apareciam ocasionalmente – a última abordagem ocorreu no ano passado. Era Vargas e Revolução Francesa apareceram pela última vez, respectivamente, em 2017 e em 2015.

Professor de Filosofia e Sociologia do ProEnem, Leandro Vieira disse que a prova abordou vários expoentes da área da Filosofia, como René Descartes, Adam Smith, Francis Bacon e Immanuel Kant. Além disso, notou uma mudança no perfil dos enunciados e respostas da prova, que eram mais curtos e diretos. “Tinha respostas com uma palavra. Em comparação com o ano passado, foi um pouco mais fácil na parte de Humanas, porque exigia domínio conceitual menor.”

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Mas nem todos os alunos tiveram essa visão. A estudante Barbara Dib, de 17 anos, por exemplo, considerou o Enem cansativo, “por causa do tamanho dos textos”. Rafaela Paganini, de 20, que fez a prova como um primeiro “teste” teve a mesma opinião. “Fiz só a Redação e uma ou outra questão de Português.”

Linguagens

Para Eva Albuquerque, professora do Cursinho da Poli, as questões da prova de Linguagens não trouxeram surpresas. “Foi uma prova mais fácil, mais de interpretação de texto – 90% das questões. Só que em anos anteriores, estava mais rica, mais difícil, mais complexa.” Entre os “personagens” citados, destaque para Cazuza.

Governo. O ministro da Educação, Abraham Weintraub, e o presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Alexandre Lopes, disseram estar satisfeitos com o conteúdo. Questionado sobre a ausência de temas, Weintraub admitiu que houve a recomendação para os formuladores do exame evitarem polêmicas. “O conteúdo das questões não vou comentar”, disse, para mais tarde relatar que só teve conhecimento das questões ontem.

Weintraub afirmou ainda que a orientação era fazer uma prova de forma a selecionar pessoas mais qualificadas. “O objetivo não era dividir, doutrinar. Assim que deveria ser um exame que mexe com a vida de todo mundo.” Ele afirmou ainda que a prova é a “cara” do presidente Jair Bolsonaro. “Foi o com menor custo nominal e mais baixo aparentemente de problemas”, ressaltou.

O presidente também parece ter aprovado a prova, ao contrário de 2018. “Não teve nada de anormal. O tema da Redação foi justificável. Foi bem”, disse, ao acompanhar uma partida sub-17 a 40 quilômetros de Brasília. (COLABORARAM LÍGIA FORMENTI, RAFAELA BORGES, IDIANA TOMAZELLI, FELIPE GOLDENBERG e HELOÍSA SCOGNAMIGLIO, ESPECIAIS PARA O ESTADO)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.