O que existe em comum entre um ex-padre, uma ex-atendente de McDonalds, um ex-vendedor de cachorro-quente e um jornalista? É que agora todos eles estão no mesmo ramo: o de mestre de cerimônia de velório.

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Com uma tradição sólida em países como os Estados Unidos, a função de cerimonialista fúnebre ainda dá os seus primeiros passos no Brasil. Trata-se, claro, do profissional responsável por ler (e escrever) breves palavras sobre a vida de quem está partindo. O cemitério Memorial Parque das Cerejeiras, na zona sul de São Paulo, está trabalhando na formação de funcionários capazes de preparar esses discursos.

“Contar a história de uma pessoa é importante para a família. É uma forma de mostrar que aquela vida teve um propósito”, diz a terapeuta especialista em luto Lélia Faleiros – responsável pelo treinamento dos futuros cerimonialistas no Parque das Cerejeiras. Na preparação, além da construção de textos, os alunos aprendem como se portar, como colocar a voz e a aguçar a sensibilidade para aquilo que é de bom tom omitir na hora de um discurso.

“A causa da morte e questões familiares são assuntos que podem ser delicados. É preciso entender o que a família quer que se torne público”, afirma a gerente administrativa do cemitério, Patricia Ovchinnikov.

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O Parque das Cerejeiras passou agora a oferecer a presença de um cerimonialista em seus velórios. Até o fim de outubro, o cemitério não havia definido o preço para esse tipo de serviço. No mercado, um orador fúnebre pode cobrar cachês que vão de R$ 150 a R$ 500. Mas o preço de cerimoniais mais elaborados, com a presença de violinistas, recursos de vídeos e balões, pode chegar a R$ 5 mil.

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No treino, Leonardo Calazans dos Santos, de 37 anos, o ex-padre, e Brenda Vitória, de 20, a ex-atendente de uma rede de fast-food, tiveram de preparar um discurso sobre a vida de personalidades que já se foram. Santos falou sobre o cantor Renato Russo (1960 -1996); Brenda discorreu sobre a vida do jornalista Marcelo Rezende (1951-2017).

No treino, os textos foram construídos após pesquisas na internet. Mas, quando eles estiverem atuando para valer, as informações serão colhidas em entrevistas com parentes e os textos serão produzidos em poucas horas.

Santos foi seminarista e ordenou-se padre, atuando na Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Há três anos e meio, largou a batina depois de se apaixonar. “Não achei justo que fosse passar pela vida sem vivenciar isso. Então, me apaixonei e casei. Tenho uma filha de 4 meses agora”, contou.

Depois de largar a vida celibatária, Santos precisou procurar um trabalho. Fez de tudo um pouco até encontrar sua nova vocação. Com a expertise de padre, ele tem a postura e o tom de voz necessários para a função. “Eu já preparava os textos das missas. A diferença é que como padre eu tinha uma preocupação doutrinária. Aqui, a ideia é narrar a vida do indivíduo.”

Brenda, que está sendo preparada para a mesma função, trabalhou em restaurantes e fast-foods da cidade, mas acabou, por influência da mãe (que foi funcionária do Parque das Cerejeiras), entrando neste universo. “Meu marido e amigas têm medo desse ambiente. Não entendem muito o meu trabalho. Eu lido com a morte da melhor maneira possível. A luta é mostrar que uma mulher jovem pode, sim, fazer essa função.”

No sul do País é mais fácil encontrar esse tipo de orador. Douglas Júlio Dias, de 39 anos, começou como jornalista, mas, ao fazer uma reportagem sobre o tema, interessou-se pela arte da cerimônia fúnebre. “Gosto de pensar que continuo atuando como repórter. Entrevisto pessoas, pergunto sobre a vida do falecido”, disse. Um dos seus discursos favoritos foi sobre uma senhora que gostava de tricotar. “Perguntei aos presentes quantos naquele recinto já não tinham usado roupas tricotadas pela falecida”, recordou. “Outro exemplo emocionante foi no velório de um pai muito severo, rigoroso com os filhos. Na ocasião, comecei dizendo que ele amava muito seus semelhantes e filhos, mas amava à maneira dele.”

Dias contou que o mais difícil é entrevistar famílias que estão em litígio ou brigando por herança. Também disse que quase apanhou em um velório ao confundir o nome da mulher com o da ex-mulher do falecido.

Jonas Zanzini, de 60 anos, é um dos cerimonialistas de luto mais experientes do País. Ele, inclusive, tem um curso online. “É preciso lembrar que você está falando para celebrar a vida de uma pessoa. Não está lá para celebrar a morte.”

Zanzini nasceu em São Paulo, tentou carreira como jogador de futebol, mas teve sucesso como vendedor de cachorro-quente em meados dos anos 1990, quando chegava a faturar cerca de R$ 10 mil por mês. Por problemas familiares, decidiu deixar a cidade e partir para Curitiba – onde trabalhou na funerária de um amigo, vendendo planos funerários.

Um dia, assistindo a um velório, achou tudo frio e impessoal. “Foi quando decidi falar em um sepultamento de uma professora. Horas depois, recebi vários agradecimentos e convites para repetir o feito em outras cerimônias.”

Zanzini disse que um bom discurso de luto pode ter um caráter religioso, mas precisa ser discreto. Para ele, colocar-se no lugar dos parentes que acabaram de perder um ente querido é fundamental. O único pecado mortal da profissão é trocar o nome do defunto. “No começo da minha carreira, eu fiz isso. É algo constrangedor.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.