Uma mensagem atribuída ao líder da Al-Qaeda no Iraque, Abu Hamza al-Muhajer, conclamou em setembro cientistas nucleares e especialistas em explosivos a se juntarem ao grupo. "O campo da jihad pode satisfazer suas ambições científicas, e as grandes bases americanas (no Iraque) são bons lugares para testar suas armas não-convencionais", disse a provável voz de Al-Muhajer, na gravação de 20 minutos. Foi a manifestação de um antigo desejo.

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As tentativas da Al-Qaeda de conseguir a bomba datam do período em que o grupo se voltou contra os Estados Unidos – seus antigos aliados -, por causa da presença de tropas americanas na Arábia Saudita, terra sagrada do Islã, a partir de 1990. Enviados de Osama bin Laden teriam pago, em 1993, US$ 1,5 milhão a um ex-ministro sudanês por um cilindro de urânio altamente enriquecido, que depois descobririam estar vazio.

A trapaça não desencorajou a organização. Em agosto de 2001, um mês antes do ataque às Torres Gêmeas, Bin Laden se reuniu com dois ex-diretores do programa nuclear paquistanês. No encontro, o líder da Al-Qaeda teria pedido ajuda para recrutar cientistas com experiência na fabricação de armas nucleares.

Dois meses depois dos atentados nos Estados Unidos, Ayman al-Zawahiri, número 2 da Al-Qaeda e considerado o seu "cérebro", disse a um jornalista paquistanês que a organização tinha comprado no mercado negro artefatos nucleares da antiga União Soviética.

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"Se você tem US$ 30 milhões, vai ao mercado negro na Ásia Central, entra em contato com um cientista soviético desgostoso, e muitas valises-bomba estão disponíveis", assegurou Al-Zawahiri ao cético repórter. "Eles nos contactaram, mandamos nosso pessoal para Moscou, para Tashkent (Usbequistão) e para outros países da Ásia Central e eles negociaram, e adquirimos algumas malas-bomba.

Apesar da autoconfiança de Al-Zawahiri, a maioria dos especialistas acredita que a Al-Qaeda, a maior rede terrorista transnacional, ainda não tenha um artefato nuclear em condições de ser empregado. A maior evidência é que ela não o empregou. Mas isso não quer dizer que não possa obtê-lo.

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Roteiro

Em artigo publicado na edição francesa deste mês da Foreign Policy (publicação da Carnegie Endowment for International Peace de Washington), dois especialistas americanos traçaram um roteiro de como a Al-Qaeda poderia chegar à bomba.

O artigo é assinado por Peter Zimmerman, ex-chefe da Agência de Controle de Armas e de Desarmamento dos EUA e da assessoria científica da Comissão de Relações Exteriores do Senado americano; e por Jeffrey Lewis, diretor-executivo do Projeto Atômico do Centro Belfer para Ciência e Assuntos Internacionais da Escola de Governo da Universidade de Harvard.

Na simulação de Zimmerman e Lewis, o grupo levaria um ano para construir uma bomba caseira, com 19 peritos e um orçamento de US$ 5,433 milhões (ver tabela). A bomba seria montada em território americano, por exemplo num rancho no Texas ou no Wyoming, para evitar os riscos de travessia da fronteira com um artefato pronto. Uma vez concluída, a bomba seria transportada, numa van alugada, para Washington ou Nova York, por estradas vicinais.

O urânio altamente enriquecido seria acondicionado num cilindro, feito com o mesmo material, e disparado por um canhão de artilharia leve. A força da explosão seria equivalente a 12,5 quilotons de TNT, próxima à da bomba lançada sobre Hiroshima em 1945, que matou cerca de 150 mil pessoas.

Segundo os especialistas, todo o equipamento necessário está disponível na internet. O know-how da bomba atômica, lembram eles, já tem mais de 60 anos. Sua fabricação é mais fácil, argumentam, que a das outras armas de destruição em massa – as químicas e as biológicas. Ao mesmo tempo, bombas atômicas reúnem duas características que em geral separam duas modalidades de atentados: são capazes de matar um grande número de pessoas e de destruir alvos altamente protegidos.