Dave Malloy é um artista persistente – as obras mais complicadas de serem adaptadas compõem o principal foco de seu trabalho. Foi assim com o portentoso romance Guerra e Paz, do qual ele selecionou 70 das mais de 1.500 páginas para compor Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812, delicado musical, que está em cartaz em São Paulo. Agora, ele finaliza uma adaptação de Moby Dick também para musical.

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Dirigido por Zé Henrique de Paula, Natasha acompanha um triângulo amoroso entre a jovem Natasha, o já casado Anatole e o lírico Pierre. O cenário é a Rússia do início do século 19, assolada pelas guerras napoleônicas. A história, porém, é totalmente musicada com ritmos modernos, que misturam a Broadway convencional com pop, soul, folk e eletrônico. Malloy, que virá a São Paulo no dia 15, falou à reportagem.

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Você leu Guerra e Paz em viagem de navio ao redor do mundo?

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O que mais me impactou em Guerra e Paz foi o personagem Pierre. Eu estava com 20 e poucos anos e trabalhava num navio de cruzeiro. Fiquei profundamente impressionado com a solidão de Pierre e sua busca pelo sentido da vida. O modo como Tolstoi conta essa história espiritual, ao lado do febril melodrama romântico de Natasha, me fez lembrar da estrutura de dois casais de muitos musicais clássicos.

E a inspiração musical? David Bowie e Pink Floyd já estavam em sua lista de favoritos?

Houve muita influência da música russa – do folk a Borodin, de Tchaikovsky a Vladimir Visotski. Mas cada personagem parecia exigir estilo musical próprio. Assim, Pierre ganhou Bowie, Arcade Fire e outros angustiados pop; Anatole recebeu Aphex Twin e outros eletrônicos; e Hélène, “pediu” uma pegada Prince.

Dust and Ashes é uma bela canção e você a compôs quando a produção já estava a caminho da Broadway. Por quê?

Quando (o cantor e compositor) Josh Groban disse que queria participar da peça, mal pude acreditar. Ao mesmo tempo, isso me fez ver que Pierre tinha que ser melhorado – talvez pelo fato de eu ter interpretado o personagem na produção original e ter atuado com medo… Assim, Dust and Ashes foi escrita especificamente para Josh, para ressaltar seu incrível talento e enriquecer o personagem Pierre.

Sua intenção sempre foi fazer um espetáculo envolvente?

Sim. Uma de minhas primeiras ideias foi de que a plateia fizesse parte do show para mostrar como a obra de Tolstoi abrange toda a humanidade.

O que você espera que o público leve do espetáculo?

Há muito para se levar, mas uma das coisas mais gratificantes para mim foi poder compartilhar meu amor por Tolstoi. É maravilhoso ver fãs adolescentes começarem a ler Guerra e Paz e descobrirem o charme, a magia e a sabedoria da obra.