Marginalidade maquiada

DivulgaçãoVidas opostas, a novela das dez da Record, tinha a pretensão de levar para a ficção a violência urbana criada pelo tráfico de drogas nas favelas. Ao menos foi o que Marcílio Moraes, autor da trama, e Alexandre Avancini, diretor da produção, explicitaram na época do lançamento do folhetim. Pouco mais de um mês depois da estréia, porém, a maioria dos bandidos da novela parece bem diferente dos tipos sanguinários que aparecem nos telejornais. Os meliantes da novela têm humor e são até engraçadinhos. Basta assistir a um capítulo para simpatizar com boa parte deles.

Claro que uma obra de ficção, como uma telenovela, não tem a obrigação de representar fielmente a realidade. E, por isso mesmo, ela pode incorrer em certas distorções e oferece liberdades aos seus criadores. Talvez seja até bom que não retrate com tanta fidelidade as cores da violência. Afinal de contas, quem acompanha um folhetim está também em busca de diversão e não de bandidos incendiando ônibus com pessoas dentro. Traficantes bem-humorados e carismáticos tornam a história mais leve e ajudam a digerir um tema que beira o intragável. Mas, ao fazer rir, a novela também banaliza práticas que devem ser condenadas.

Jacson, personagem de Heitor Martinez, é cruel que chega a dar raiva. Só sua aparência já causa medo. Mas, pelo menos por enquanto, é quase que o único bandido totalmente bronco na produção. Sovaco, de Leandro Firmino, é temido pelos moradores do Torto, comunidade onde se passa a história. Ao armar suas tramóias, no entanto, se diverte ao lado do companheiro Pavio, de Phelipe Haagensen, e diverte também o telespectador. Tem um gênio bem mais leve que a do tenso Zé Pequeno, personagem que o celebrizou no filme Cidade de Deus. Todas as gangues e quadrilhas da novela, aliás, usam e abusam da ironia, com humor tanto no texto quanto na interpretação. Algo bastante incomum em produções que enfocam o mundo do crime. Esse tom jocoso alivia o drama, mas também deixa a perigosa impressão de que viver do tráfico é tão ?normal? quanto qualquer outro meio de subsistência.

O folhetim está só no começo e a dosagem da violência continua sendo o segredo para Vidas opostas não chocar. Tanto que, baseada em pesquisas, a emissora já informou que não pretende exagerar no sangue e nos tiros dos próximos capítulos. Só que é preciso não pintar lobos como cordeiros. Matar não é brincadeira. 

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