Quando nada mais se imaginava incorporar ao patrimônio cultural da italiana Assis (ou Assisi para os da terra), berço da arte renascentista, eis que uma boa-nova é anunciada pela prefeitura local, dando destaque a uma grife brasileira. A partir deste mês, a Piazza Santa Maria degli Angeli, ponto privilegiado do centro histórico, abrigará em caráter definitivo a Mandala de Pedra, oitava obra pública da paulistana Denise Milan. Doada pelo Fetzer Institute, de Chicago, a escultura fez parte de uma instalação da artista para Assis, sobre tema que é a própria missão da entidade americana: Loving and Forgiveness (Amor e Perdão).
A obra nasce como parte do projeto A Global Gathering, em que o Fetzer junta 500 líderes mundiais – entre eles, a artista – para pensar os caminhos de uma sociedade com mais entendimento e sustentabilidade.
Denise concebeu sua obra como um instrumento de navegação da Terra no sistema solar, sob a forma de uma mandala com 2,6 metros de diâmetro. E mais uma vez articula a sintaxe das pedras, foco de seu interesse há três décadas: no caso específico, foi atrás do calcário branco e rosa da Umbria, presente nos sítios arqueológicos da região.
Com autorização para captar matéria-prima apenas em uma área determinada, a artista fez com que esse calcário fosse cortado em centenas de peças por artesãos locais, depois dispostas segundo desenho que converge para o centro, onde então instala uma esférica sodalita brasileira. É a sua pequena Terra Azul. “Ao conectar mandala e Terra, vou lidando com a memória geológica, mas de olho no futuro”, explica Denise, hoje não só reconhecida por suas esculturas e fotocolagens, mas pela liderança que exerce na fronteira da Arte Pública.
Trabalhos seus estão incorporados à paisagem urbana de várias cidades brasileiras – Drusa, no Vale do Anhangabaú (SP), Améfrica, no Jardim de Esculturas do Centro Cultural Banco do Brasil em Brasília, ou Redenção do Pelourinho, em Salvador. E no exterior – como é o caso de America’s Courtyard, no Adler Planetarium, em Chicago. Para a artista, a ars publica não se limita a revitalizar e humanizar espaços coletivos, mas reinterpreta rituais da vida, alcançando até o sagrado.
O convite para expor na cidade dos afrescos de Cimabue e Giotto, formalizado pelo Fetzer em 2011, veio na sequência da repercussão da obra para o planetário americano. Já em Assis, Denise realiza um trabalho que vai além da formulação estética sobre dois sentimentos, amor e perdão, tratando-os na verdade como duas éticas de vida, um tanto quanto escassas nos dias de hoje.
Inspirou-se em personagens fortes tanto do ponto de vista histórico quanto sacro: São Francisco e Santa Clara. E jamais poderia supor que um jesuíta surgiria no cenário mundial em 2013, recolocando os valores do franciscanismo em foco (por pura coincidência, o papa Francisco visitará Assis nos próximos dias, já com a Mandala da Terra instalada nas ruas). “Retomo a vida de Francisco e Clara ao expressar que o ser humano deve ser o protetor e, ao mesmo tempo, o beneficiário da Natureza”, justifica, inspirando-se também no “círculo de compaixão entre os vivos”, ideia de que falava Einstein.
Aprovado o projeto, Denise saiu em busca das pedras da instalação “e o incrível foi pesquisar todos aqueles lugares pelos quais Francisco e Clara passaram em suas andanças”. Entre estes lugares estava o célebre Monte Subasio, onde o santo mendicante costumava passar longos períodos em meditação. Enquanto peregrinava para coletar pedras, Denise tinha a seu lado uma família de artesãos locais, gente acostumada a cortar o calcário seguindo técnica passada de pai para filho, por séculos.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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