Há mais ou menos 45 anos, em Santa Catarina, tomei coragem fiz as malas e comuniquei ao meu pai que estava de mudança para Curitiba:

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– Vou ser cartunista!

– Cartunista? O que vem a ser isso? – ele perguntou.

Não respondi. Naqueles anos da ditadura era uma atividade – chamar de profissão seria um exagero, pois eram raros o que viviam do risco – que só existia na imaginação de quem lia o Pasquim, hebdomadário semelhante ao Charlie Hebdo onde um punhado de irreverentes desenhistas e escritores desafiava a censura generalizada (dos generais) e civilizada (dos civis). Entre os poucos que exerciam aquela profissão de risco era Millôr Fernandes, que em resposta às ameaças sofridas respondia com mordacidade a pressão da mordaça: “Fiquem tranquilos: nenhum humorista atira para matar”.

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Meu pai morreu alguns anos depois. Chegou a ver as minhas primeiras charges publicadas, e só depois então entendeu o espírito da coisa:

– E eles ainda pagam para vocês se divertirem?

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Muito me diverti nos meus trinta anos de chargista cotidiano na página editorial de “O Estado do Paraná” e ainda nesta Tribuna do Paraná, como redator de humor na coluna Triboladas, até me reinventar como cronista para ganhar a vida. O que de certa forma justifica a advertência do pai:

– Isso não dá futuro pra ninguém! Você só vai arrumar sarna para se coçar!

De fato. Afora as sarnas e os sarneys, o que se arruma muito nessa profissão de risco são os desafetos. De esquerda e de direita – assim como nos ensinam os caricaturistas parisienses desde a Revolução Francesa de 1789 -, sem respeitar Deus e o Diabo.

Não sem um certo constrangimento, posso dizer que nunca fui censurado pela Polícia Federal da Rua Ubaldino do Amaral, a rua de Dalton Trevisan. Sofri, isto sim, foi com a autocensura. Aquele conhecido processo de pensar duas vezes e analisar com o editor os prós e os contras de abordar assuntos relacionados com farda, toga e batina. 

Especialmente aqui na província, em raríssimos momentos chegamos ao pé de página do Canard Enchaîné (Pato engaiolado) ou o já extinto Hara-Kiri – o hebdomadário anterior ao Charlie Hebdo -, fontes de onde bebíamos as águas fresquinhas do humor corrosivo, libertário e libertino dos inconformistas que não baixam a cabeça perante o fanatismo. Dois resistentes pilares do humor francês contemporâneo, no Canard Enchaîné há alguns limites de pauta que nunca existiram nas cabeças privilegiadas que faziam da pequena e feroz tiragem do Charlie Hebdo uma trincheira em defesa da tradição libertária e anticlerical da imprensa satírica da França, que conheceu o seu apogeu no século XIX com centenas de títulos, uns mais corrosivos do que outros.

Posso contar nos dedos alguns momentos que corri o risco de ser morto em função dessa profissão de risco. Uma ou duas vezes quase fui atropelado a caminho do jornal, outra vez fui para o hospital depois de ser assaltado na Praça 19 de Dezembro (justamente no dia em que meu pai morreu) e numa outra vez  – aí sim! – corri o risco de ser eliminado com uma garrafada na cabeça. Foi no Bar Bebedouro, na Largo da Ordem, quando um alto assessor do governo do Paraná, completamente borracho, se ergueu da mesa para ameaçar a mim e ao jornalista Aramis Millarch, também desafeto do aspone palaciano:

– Vocês vão morrer, seus FDP!

E saiu correndo em nossa direção, com a garrafa de uísque na mão, bem ao estilo das pancadarias nos saloons do Velho Oeste. A cena que se viu em seguida parecia filme do Mazzaroppi, com dois jornalistas correndo em torno do Bebedouro do Largo da Ordem e o Chefe da Adega Oficial do Estado (como passou a ser tratado) em perseguição, com a garrafa quebrada na mão.