Brasília – A papaína, enzima extraída das folhas e frutos verdes do mamoeiro promete ser a grande solução para as reações irritantes causadas pelas loções depilatórias na pele, como irritação, vermelhidão e inchaço. É o que mostra uma pesquisa realizada pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP.
O farmacêutico-bioquímico Eduardo Traversa estudou os efeitos sobre o pelo e o folículo piloso decorrentes da aplicação das formulações gel e um creme contendo 0,8% de papaína, verificando suas propriedades. Nos ensaios realizados, um grama do produto foi aplicado diariamente, durante 30 dias, em uma área de dois centímetros quadrados no dorso lateral de dez camundongos.
“No final do tratamento, todos os camundongos que recebiam creme de papaína diariamente mostraram efeito depilatório visível. O gel não se mostrou tão eficaz quanto ao creme, devido a sua formulação, que não é adequada para esta ação. No 31° ensaio, apenas um camundongo apresentou a região tratada com menor densidade de pelos”, conta Traversa.
Segundo o farmacêutico, foi notado em análise microscopia, o aumento da espessura da pele dos camundongos e a dilatação do folículo piloso, o que dificulta o aparecimento de outros pelos. Para ele, os resultados foram bons, mas ainda são necessário novos testes para comprovar se o efeito depilatório da papaína será o mesmo em seres humanos.
Traversa conta que o estudo é derivado de sua tese de mestrado. Ele informa que a papaína já havia sido citada na literatura especializada em virtude de seu potencial de quebrar proteínas. “Teoricamente ela seria capaz de promover um efeito depilatório, dissolvendo o pelo. E foi exatamente isso que provamos com este estudo”, diz ele.
“As loções depilatórias convencionais, à base de tioglicolatos – substâncias que agem na queratina do pelo, dissolvendo-o – são muito irritantes para a pele porque além de interagir com a queratina, também podem reagir com a queratina da pele. É essa interação química que causa dor e coceira”, explica Traversa.
De acordo com o farmacêutico, uma das funções da queratina é formar uma barreira mecânica contra traumas, radiação, microorganismos e substâncias químicas. No caso desses depilatórios, como a queratina local não está intacta, a fisiologia da pele poderá ficar comprometida.
A nova fórmula de depilatórios tem índice de acidez (pH) equivalente ao da pele humana (em torno de 5,5), sendo que a maioria das convencionais analisada pelo pesquisador apresenta um valor elevado, entre 11 e 12, sendo muito alcalino e irritante. “Por esse motivo, a papaína seria uma opção mais segura para os consumidores”, complementa Traversa.
A papaína tem várias aplicações cosméticas e alimentícias. Na área farmacêutica é empregada na remoção de tecido necrótico facilitando a cicatrização, na limpeza de resíduos de lentes de contato gelatinosas e ainda como facilitadora de absorção de outros fármacos. Na área de cosmético é aplicada como esfoliante, promovendo o amaciamento da pele.
Para os plantadores de mamão, produzir papaína é um grande negócio, pois a indústria vem utilizando-a em escala cada vez maior. O mercado internacional cresce de forma acentuadamente promissora, tanto em quantidade como em valor, uma vez que a papaína é a enzima proteolítica mais potente existente para usos industriais. “Mesmo que ela venha a ser produzida sinteticamente, por meio da biotecnologia, a papaína obtida do látex do mamoeiro levará grande vantagem, por ser produto nacional”, enfatiza Traversa.
Hoje, o mamoeiro pode ser encontrado em todo os países tropicais, sendo, ao lado da banana, uma das frutas tropicais mais largamente cultivadas, conhecidas e consumidas. O Brasil apresenta, em várias regiões, condições de clima e solo favoráveis à cultura do mamoeiro, sendo que as plantações mais extensas estão no Mato Grosso, Espírito Santo e Bahia.
O mercado mundial da papaína situa-se na faixa de 200 a 400 toneladas anuais. O seu preço está relacionado à oferta no mercado: no período de junho de 1990 a junho de 1992 ele se manteve, em média de US$ 45/Kg; em 1993 subiu para US$ 120/Kg, caindo para US$ 85/Kg em 1994.
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