Eletromagnetismo gera dúvida

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Pesquisas apontam que tal exposição poderia causar doenças como distúrbios neurodegenerativos e câncer.

São Paulo – Os efeitos à saúde humana da exposição a campos eletromagnéticos de linhas de transmissão de energia elétrica ainda não são totalmente conhecidos, uma vez que os resultados de estudos científicos sobre o assunto são conflitantes. Algumas pesquisas apontam que tal exposição poderia causar doenças como distúrbios neurodegenerativos, problemas cardíacos e câncer. A leucemia em crianças é uma das fontes de preocupação, devido ao número de evidências que atribuem, como uma de suas causas, a proximidade das residências de pacientes com as linhas de transmissão.

?A exposição eletromagnética a 60 Hz, que é o espectro de freqüência utilizado para a transmissão de energia elétrica, gera campos que criam cargas elétricas na superfície do corpo humano, enquanto, ao mesmo tempo, os campos magnéticos penetram e criam correntes internas dentro do organismo?, disse Flavio Barbieri, coordenador do Projeto Projeto EMF-SP (Electromagnetic Fields, na sigla em inglês), desenvolvido pela Associação Brasileira de Compatibilidade Eletromagnética (Abricem) em conjunto com instituições acadêmicas de São Paulo. O evento ocorreu na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo ele, o sistema elétrico do Estado de São Paulo atende aos limites de radiação eletromagnética adotados pela Comissão Internacional para a Proteção contra Radiação Não-Ionizante (ICNIRP) e recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Mas estudos conduzidos por pesquisadores vinculados ao Projeto EMF-SP, que é apoiado pelos ministérios da Saúde e de Minas e Energia, poderão subsidiar políticas públicas para a adoção de limites mais restritivos. ?O nosso maior desafio é estudar os tipos de efeitos que esses campos geram dentro do organismo humano, uma vez que seus mecanismos de ação ainda não são bem conhecidos?, afirmou Barbieri.

O problema é potencializado em grandes centros urbanos, que conta com cerca de 900 quilômetros de linhas de transmissão de alta voltagem, sendo que muitas passam a poucos metros das residências, sobretudo em habitações irregulares na periferia.

O professor titular do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP Victor Wünsch Filho apresentou um estudo epidemiológico que está avaliando a associação entre a exposição a campos magnéticos de 60 Hz, considerados de baixa freqüência, e a incidência de leucemia linfocítica aguda (LLA) em crianças. ?Cerca de 20 trabalhos dessa natureza foram realizados em outros países nos últimos 25 anos. O nosso é o primeiro na América do Sul. Precisamos elaborar nossas próprias referências e produzir dados científicos originais devido às particularidades do nosso País?, explicou.

Estudo analisa duzentas crianças com leucemia

São Paulo (Agência Fapesp)

O estudo feito na Faculdade de Saúde Pública, que começou em fevereiro de 2006 e tem conclusão prevista para dezembro deste ano, analisa indivíduos de até 9 anos de idade atendidos em oito hospitais de quatro cidades paulistas: São Paulo, Ribeirão Preto, Barretos e Jaú, que, segundo Wünsch, reúnem cerca de 50% dos casos de LLA incidentes no Estado de São Paulo.

O trabalho envolve 200 crianças com a doença, comparadas com cerca de 800 crianças do grupo controle, sem a LLA. Os participantes do estudo respondem a um questionário eletrônico que coleta informações como história migratória da família, características socioeconômicas da criança, histórico de câncer na família e exposição a raio X ou radioterapia da mãe durante a gravidez.

As informações são cruzadas com dados sobre campos magnéticos, após os pesquisadores visitarem as casas dos pacientes para fazer a medição local por meio de dosímetros. As medições são feitas tanto na parte externa como na interna das casas, na qual o dosímetro é colocado debaixo da cama da criança com a doença e lá permanece por 24 horas. ?Quanto maior a exposição das crianças a campos elétricos e magnéticos iguais ou maiores a 0,3 microtesla, maior é a associação com a ocorrência de leucemia linfocítica aguda. Essa associação não é verificada em níveis mais baixos que 0,3 microtesla. Por isso esse é o nível de exposição que nos interessa avaliar no que se refere à prevalência de LLA em crianças?, explicou o professor titular do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP Victor Wünsch Filho.

?Após medições de três minutos, realizadas na parte externa das residências, dados preliminares indicam que cerca de 15% da amostra de indivíduos controles, até agora analisada, está exposta a campos magnéticos em níveis iguais ou maiores a 0,3 microtesla, nível assinalado como de risco. Mas, como o trabalho ainda está em andamento?, disse Wünsch Filho.

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