Manaus – O aquecimento global é um fato comprovado pela ciência, mas a análise de suas conseqüências atuais e futuras na vida dos homens e do planeta divide os cientistas. A grande seca na Amazônia no ano passado e a possibilidade de que fenômenos semelhantes voltem a ocorrer com mais freqüência, por exemplo, é um dos pontos de polêmica.
?Daqui a 20 anos deveremos ter um El Niño permanente sobre a Amazônia, o que provoca um aumento da seca em grande parte da região?, declarou o pesquisador Paulo Artaxo, que faz parte do comitê científico do Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA) e do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).
?Não há nada muito conclusivo sobre chuvas na Amazônia?, ponderou o gerente-executivo do LBA, Antônio Manzi. ?Em geral, os modelos climáticos apontam aumento que vai chover mais no mundo inteiro, mas não se sabe como essa pluviosidade será distribuída?.
O pesquisador Arnaldo Carneiro, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), lembrou que o clima do nosso planeta é dinâmico, marcado por longos períodos glaciais e interglaciais. ?As grandes mudanças climáticas estão relacionadas à relação entre Terra e o Sol, na qual o homem não pode interferir?, avaliou. ?Por isso é tão difícil fazer projeções e avaliar o efeito da ação humana no clima?.
O IPCC é formado por cientistas do mundo inteiro, que oferecem subsídios para as decisões tomadas no âmbito da Convenção sobre Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU). Nesta semana e até o próximo dia 17, os países signatários do acordo estão reunidos no Quênia, na 12ª Conferência das Partes (COP-12).
As análises do IPCC são divulgadas por meio de relatórios. O terceiro e último foi publicado em 2001. O quarto deve ser lançado apenas após a Assembléia Geral do IPCC, em abril do próximo ano, na Bélgica. Mas o médico brasileiro Ulysses Confalonieri, que coordena o Comitê de Saúde do IPCC, adiantou algumas das conclusões que estarão no documento.
?O relatório afirma que não houve tendências claras sobre ciclones tropicais e tornados, mas que aumentou a frequência de secas mais intensas e duradouras desde 1970 e de episódios de muita chuva?, revelou Confalonieri. ?Outro dado é que a temperatura global média do ar aumentou 0,74ºC entre 1906 e 2005. Isso significa que a primavera no hemisfério Norte está sendo antecipada em 10 dias?.
De acordo com o médico, outras conclusões presentes no quarto relatório do IPCC são: 11 dos 12 últimos anos foram os mais quentes desde 1850; o nível médio do mar aumentou 1,6 milímetros por ano entre 1993 e 2003 (ao longo do século 20, foram cerca de 17 centímetros); a cobertura de neve e a extensão das geleiras diminuíram nos dois hemisférios; a área máxima coberta sazonalmente por gelo no hemisfério Norte decresceu 7% desde 1990 (ou seja, os invernos lá estão menos rigorosos.
